sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Eva Ionesco




Já escrevi anteriormente sobre a mãe de Eva, Irina Ionesco. Recomendo a leitura do post dela antes deste.

Eva nasceu em 1965, na França, e logo aos 3 anos tornou-se a modelo fotográfica favorita de sua mãe. As fotografias eróticas feitas por Irina Ionesco de sua jovem filha Eva têm sido uma fonte de controvérsia desde que apareceu pela primeira vez na década de 1970. Mas Eva também foi modelo para outros fotógrafos, como Jacques Bourboulon.


Ela é a mais nova modelo que já apareceu nua em uma revista Playboy, uma vez que foi apresentada aos 11 anos, em outubro de 1976, numa edição italiana da revista com fotos de Bourboulon. Outra de suas fotos nuas saíram em 1978, na edição de novembro da edição espanhola da Penthouse, numa seleção de fotografias de sua mãe.



Eva Ionesco fez sua estréia no cinema com a idade de 11, em 1976, no filme O Inquilino, de Roman Polanski. Pouco tempo depois, ela estrearia diversos filmes, como Maladolescenza, de 1977. Neste ano sua mãe perdeu a guarda de seus filhos e Eva Ionesco foi criado pelos pais do designer Christian Louboutin. Ela tentou três vezes processar a mãe por estresse emocional, e o julgamento ainda está em curso pelos tribunais franceses. Em 1998 a polícia francesa confiscou centenas de fotografia dela no apartamento de sua mãe em que ela aparece com a idade de cinco em poses sugestivas e em completa nudez.


Sua história serviu de inspiração para o bebê Louis Malle filme Pretty. [5] Em 1980, ela participou da prestigiada escola de teatro Amandiers, dirigido por Patrice Chéreau e Pierre Romans. Em 2010, dirigiu seu primeiro filme, My Little Princess, estrelado por Isabelle Huppert, onde ela conta a tensa história da relação entre ela e sua mãe.


A seguir, reproduzo a entrevista concedida a Paulo Portugal, para o site português C7nema, em julho de 2012.

Quando foi que lhe ocorreu a ideia de fazer este filme? Foi já há bastante tempo?

Sim, sim. Há muito que queria contar esta história, queria fazer um filme sobre esta história. Enfim, não era bem esta história, era algo muito mais vasto. Mas acabei por me centrar na ligação com a filha... Que era vista como uma boneca. 

Tanto quanto sei, este filme faz parte de algo mais vasto...


Sim, penso numa trilogia. Como um romance, mas como ponto de partida para fazer um filme. Por isso concentrei-me na ligação da mãe com esta filha pequena que é interpretada pela Anamaria (Vartolomei) e a Isabelle (Hupert). Foi algo muito difícil, muito doloroso, muito complicado...


Mas era algo que tinha de fazer.

Sim, era um dever que tinha. O filme não é um jogo de espelho onde me revejo, mas algo que sinto que devo fazer. Como uma obrigação. Eu tinha de contar esta história.


Alguma vez perdoou à sua mãe o que fez?

Não. Sabe quando alguém lhe faz muito mal, e nunca regressa para pedir desculpa. Nunca me entregou as fotos eróticas. Nunca pediu desculpa, nunca, nunca, nunca...


Refere-se às fotos que circulam na Internet?

Sim, mas nunca farei qualquer exposição delas. Sabe, apenas desejo uma coisa: que ela morra. Sempre quis que ela morresse e ficarei feliz quando desaparecer.


Bom, não sei o que dizer...

Há pessoas que se lamentam porque perderam um amigo ou membros da família. Pode ser triste, mas é algo que eu não conheço. Sei que a minha mãe está muito doente, mas não quero saber. Só quero que desapareça. Compreende?


Tento compreender. Regressemos então ao passado. Lembra-se quando tinha então essa idade...

Tinha três ou quatro anos.


Do que se lembra desse período?

Quando são os nossos pais que nos manipulam desde o inicio, não temos consciência de pensar o que sabemos hoje. Uma máquina fotográfica era apenas aquilo.


Não tinha a noção de que era algo pouco natural?

Não com três, anos, não com quatro anos, não com cinco anos. As crianças sorriem, mesmo quando nos fazem mal. Quando são os nossos pais que fazem isso, não podemos falar, pois não conhecemos as regras do mundo. Isso é criminoso. É um grande crime. Não serei a primeira.


Em que momento...

...como se pode manipular uma criança, pedir-lhe para abrir as pernas aos três anos e mostrar essas fotos sem que a criança saiba. Utilizá-las a vida inteira e vendê-las. Esse ato é monstruoso. E merecedor de punição.



Com que idade começou a aperceber-se de que algo não estava bem?

Claro que me apercebi que algo não estava bem. Sobretudo que havia coisas que não estavam bem na cabeça desta mulher. A minha mãe era uma pessoa com grandes neuroses. Quando vemos hoje as fotos pensamos que é arte ou porcaria? A menina está triste e tem as pernas abertas. Porquê? Pode dizer-se: é belo, é barroco. E isto durante dez anos! É preciso ser-se doente.


Para si, foi igualmente doloroso fazer este filme?

Não. A fazer este filme, tinha de ser algo muito lúdico. Quando fazemos o filme não estamos a pensar na dor. Não podemos.


Compreendo, porque a realidade não é bem o que é mostrado.

Claro. Aqui a história é bem diferente, é uma rapariga que se dá conta de si e acaba por chamar a si o seu destino. Não é a mesma coisa.

Alguma vez tentou compreender o que se passava na cabeça da sua mãe?

Sim, tentei fazer isso. Aliás, fiz este filme para tentar compreender. E para que não se repita. Tinha muito medo de fazer algo que fizesse mal ao meu filho.


Ele tem que idade?


Já é crescido, tem 17 anos. Mas tinha receio de reproduzir algo que o pudesse enfraquecer. Apenas do ponto de vista das pulsões sexuais. Mas comecei a pensar nesta história quando ele tinha quatro anos. O que tentei fazer com este filme foi remontar esse mecanismo inconsciente. Ela mesmo está ligada ele, pois viveu também um incesto.


Portanto, uma parte dolorosa da sua vida.

De certa forma, ela reproduziu comigo  o que lhe sucedera. Ela foi levada para o quarto com a mãe e em vez de dizer que ela era sua filha disse-lhe que era a sua irmã. Então percebemos que optou por se fazer observar. É essa a sua pulsão artística. Uma pulsão de desejo, de morte. Mas não é premeditado.

Mas não deixa de ser uma exploração sexual...

Sim, é bastante violento. Nem sequer é uma linguagem articulada. Fazer fotos barrocas, muita gente pode fazer. Pessoalmente, não acho isso artístico. Eu acho que arte deve ajudar o mundo, e não contrário.  Não vejo o que ela fez de bem.

Como encara o seu filho o passado da mãe. Calculo que tenha visto todas essas imagens...


Claro que está a par de tudo. Conhece o meu ponto de vista e disse-me que ficou muito orgulhoso por eu ter feito este filme. Disse-me que eu era a Princesa dele. E, sabe, estivemos em Portugal. Aliás, vamos sempre durante o Verão.

Ai sim, onde?


Em Carvalhal, a 150 kms de Lisboa, na costa. É lindo, vamos todos os anos.

A escolha para os intérpretes foi mais ou menos óbvia para o filme?

Sim, foi evidente. Há muito que queria a Isabelle. É uma actriz enorme e sabia que ela poderia saber interpretar a personagem. Deu-me toda a confiança e a força.

E a Anamaria?


Ela tinha medo da Isabelle, porque não a conhecia. Vinha da Roménia. Foi preciso falar muito com ela e explicar tudo. Todas as cenas foram ensaiadas.
Eva e seu filho, em foto de Veronique Vial

E ela sendo jovem tinha essa consciência dos limites que estavam em causa?

Eu expliquei-lhe que teria de ser uma menina que tirava a roupa, mas que nunca estaria nua no filme. E que tirava fotografias. Era uma história de chantagem, em que se despia para ter roupas bonitas. Trabalhamos todas as nuances.

Falou de uma trilogia. O que poderemos esperar do que falta?


O segundo filme será uma crónica sobre as histórias de amor adolescente nas festas nos famosos clubes noturnos de Paris...



Clubes eróticos?

Eróticos? Nem por isso. Mais grotescos.


Está em que estado de produção?

Está na parte da escrita, está metade escrito.


E já tem título?

Talvez «A Última Dança». Agora já será adolescente.


Sempre com a Anamaria?

Sim. Faz parte do projeto. Vamos ver se consigo chegar ao terceiro filme.


Mas como é que desenha esta trilogia?

O primeiro filme é a relação mãe e filha; o segundo são os amores e a deceção, também uma história diferente da sexualidade.


Imagino que terá também um lado pessoal...

Sim, tem um lado pessoal. A terceira parte será a procura do pai. Isso será mais contemporâneo.


Nunca falámos do seu pai...


É algo voluntário, porque faz parte de um outro capítulo. Mas ele era muito misterioso. Diz-se até que seria um espião. Talvez por isso o visse tão poucas vezes. Na primeira parte, os homens não fazem parte da história.


Enquanto fotógrafa, que opinião tem do trabalho fotográfico da sua mãe?

Pessoalmente, continuo a achar que é um trabalho um pouco pedófilo. Para além do lado barroco que se possa entender. É só isso que conta, uma menina a mostrar o seu corpo. É artístico? Não, é pedófilo. Só tem a ver com o desejo. Por isso, é pedófilo.





2 comentários:

  1. Acabei de assistir o filme, chocada. Em vários momentos pensei em pagar a criança no colo. Sou mâe de duas meninas e acho nojento e cruel o que foi feito com Eva. Pedofilia sim. Que bom que ela superou, conseguiu tocar a vida, mas o passado sempre vai estar lá.

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  2. assisti Maladolecenza(1977) e achei o filme denso,pesado...
    As meninas tinham 12 anos! Muito estranho,com a sensação de estar com a consciência pesada e o clima em casa não fica dos melhores... Não gostei.

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